Shakespeare and Company: Uma livraria na Paris do entre-guerras

Em 1919, a margem esquerda do rio Sena ganhava um ponto de encontro - e às vezes refúgio - para os escritores de língua inglesa que passavam por Paris. A jovem norte-americana Sylvia Beach mudara-se para a cidade e decidira montar a livraria que apresentaria aos franceses as obras da genial safra de escritores dos EUA na primeira metade do século XX.

Batizada de Shakespeare and Company, a livraria também foi responsável por publicar a obra prima de James Joyce, Ulisses, que fora rejeitado e proibido no Reino Unido e nos Estados Unidos por ser considerado imoral.

Depois de viver seu auge no período entre-guerras, a Shakespeare and Company teve de fechar. A ocupação nazista em Paris ameaçava os livros, quadros e manuscritos guardados na loja. Anos depois, após a morte de Sylvia Beach, eles foram recolocados à disposição dos leitores, escritores, turistas e curiosos, desta vez em uma outra loja, pertencente a George Whitman, que rebatizou sua própria loja com o nome da Shakespeare, e deu à sua filha o nome da antiga proprietária.

Célebres clientes


As memórias dos anos de vida da Shakespeare and Company foram registradas pela sua proprietária em um livro. Nele, Beach conta histórias do tempo que dividiu com grandes escritores que passaram por sua loja.

Ezra Pound e sua esposa Dorothy foram os primeiros "visitantes vindos de ultramar" a visitar a livraria de Sylvia Beach. O casal mudava-se para Paris com a justificativa, segundo contaram à anfitriã, de que em seu país a "água estava subindo e eles podiam acabar acordando qualquer dia com pés-de-pato". Segundo o relato de Sylvia, Ezra Pound não era do tipo de escritor que fala sobre seus livros. Nem sobre os de qualquer outro autor. Preferia gabar-se de suas habilidades como carpinteiro.

Em um jantar, Beach conheceu aquele que seria o único autor publicado pela Shakespeare and Company.

"Eu idolatrava James Joyce, e ao ouvir a notícia inesperada de sua presença, fiquei tão assustada que quis fugir".

Relata ela em suas memórias. No dia seguinte ao jantar, Joyce foi à livraria e deu-se início a uma grande amizade. Sylvia descreve momentos delicados da vida do escritor irlandês, como a gradual perda da visão e as operações nos olhos, até as dificuldades financeiras e os constantes empréstimos.

Desde o momento em que aceitou investir na publicação de Ulisses, Beach sabia que se tratava de uma obra grandiosa, de uma das maiores em língua inglesa. Por isso, e pelo carinho que nutria por Joyce, foi pouco ortodoxa e nada econômica, deixando que o escritor alterasse quantas provas do livro que quisesse. A princípio, Joyce acreditava que pouco mais de 12 cópias do livro bastariam. Foram impressas mil em uma edição rapidamente esgotada.

Pouco depois de inaugurada, a Shakespeare and Company recebeu duas de suas clientes: Gertrude Stein e sua companheira Alice B. Toklas. Não tardou para que elas se tornassem amigas de Sylvia Beach e a tornassem uma frequentadora de sua pavillon na rua dos Fleurus, uma espécie de ateliê com paredes cobertas de originais de Picasso e Matisse.

Não era difícil encontrar Ernest Hemingway na livraria. Ele se autodenominava "o melhor cliente" da Shakespeare and Company, conforme conta Beach. No início dos anos 1920, depois de lutar na Itália, Hemingway estabelecera-se em Paris como correspondente esportivo do jornal Star de Toronto, e começava a se dedicar à ficção. Sylvia Beach disse ter escutado em primeira mão um dos contos que integraria No Nosso Tempo.

Um comentário:

Mademoiselle Ѽ disse...

Oi linda! ótimo findi e feirado pra ti!

bjs.