O s Anos Loucos - Capítulo 1: Últimos Ritos, Primeira Loucura

Ele era Modi, ela era Noix-de-Coco - ou ele a chamava Haricot Rouge naquele inverno da Grande Guerra quando os amantes não comiam nada a não ser feijão vermelho. Modigliani havia colhido uma flor recém-desabrochada e frágil entre as jovens alunas da Academia de Arte Colarossi: Jeanne Hébuterne, de 19 anos, o último grande amor do pintor. Ele pintou-a na pose lânguida, sensual, alongada das mulheres de Modigliani; ela fugiu de casa para partilhar sua vida miserável na rue de la Grande-Chaumière e engravidar dele. Por algum tempo houve uma mesada - de até três mil francos - do marchand Zborowski, mas o dinheiro se esvaía em absinto e vinho, haxixe ou cocaína.

Uma vez, num grande porre ou numa alucinação causada por drogas, Modi arrastou Jeanne pelas tranças e poderia tê-la espancado na rua, não fosse a intervenção de uma zeladora.

"Nós estamos de acordo, Jeanne e eu, numa alegria eterna", disse ele a Zbo - fosse o que fosse o que, em 1919, isso queria dizer em Montparnasse. A deles foi sem dúvida uma história de inverno das Cenas da vida boêmia de Henri Murger. Quando Amedeo Modigliani morreu de meningite tuberculosa no Hôpital de la Charité, seu irmão Emmanuele telegrafou a Kisling de Roma:

"Enterre-o como um príncipe."


A desastrada máscara mortuária de Kisling arrancara pedaços do rosto de Modigliani: Jeanne Hébuterne, nos últimos meses de uma segunda gravidez, só lançou ao corpo um último olhar breve; não se permitiu uma lágrima nem beijou em adieu no rosto desfigurado.

Os pais levaram-na de volta para o apartamento dos Hébuterne na rue Amyot: a enervante calma de Jeanne os preocupara, ela não podia ser deixada sozinha no ateliê de Modigliani. Apesar de um irmão tomando conta, Jeanne pulou para a morte de uma sacada do quinto andar. A posição do seu corpo dava a entender que ela pulara de costas, para não olhar as pedras do calçamento embaixo.

Como um príncipe, Modigliani foi conduzido ao cemitério de Père Lachaise no coche negro emplumado das pompas fúnebres. Um séquito que incluía Zborowski, Derain, Brancusi, Lipchitz, Survage, Léger, Soutine, Valadon, Fujita e Picasso acompanhou o príncipe a seu túmulo. Entre eles havia quem acreditasse que a Belle Époque tinha realmente acabado naquele janeiro de 1920 em que Amedeo Modigliani foi enterrado. Mais tarde, a família Hébuterne mostrou-se mais flexível e permitiu que Jeanne fosse colocada ao lado de Modi no Père Lachaise.

Quatro meses depois, naquele mesmo ano, a década de 20 pode ter começado num trecho de estrada de ferro perto de Montargis.

Nas primeiras horas de 24 de maio, um assentador de trilhos chamado André Radeau ia andando sobre os dormentes pelo Bois de Leveau, ao longo da linha Paris-Lyon-Marselha, a 113 quilômetros de Paris, quando foi abordado por um indivíduo descalço, vestindo pijama, que se aproximou dele na escuridão.

"O senhor não vai acreditar!", gritou a aparição.
"Sei que isso deve parecer incrível,
mas eu sou o presidente da França!"

O senhor de pijama estava machucado e arranhado. Disse que havia caído do trem presidencial que ia para Roanne. André Radeau acompanhou o pobre coitado até a casa do guarda-cancela no cruzamento mais próximo. Lá, num chalezinho de um cômodo, o guarda-cancela Dariot e esposa ficaram tão perplexos de receber esse hóspede inesperado quanto Radeau ao encontrá-lo nos trilhos da PLM.

O desconhecido apresentou-se como Paul Deschanel, presidente da França. Pediu então a Dariot que comunicasse seu acidente ao subprefeito de Montargis. O guarda-cancela garantiu ao cavalheiro que faria como era do seu desejo, mas não se mexeu. Ao invés disso, foi juntar-se a mulher e ao assentador de trilhos, que cochichavam num canto.

"Madame", entoou o visitante. "Estou vendo que seu marido não acredita que eu seja o presidente da República. A senhora já viu algum retrato de Paul Deschanel?"

A mulher do guarda-cancela reparara na aparência do cavalheiro. O pijama era de qualidade impecável; seus pés - a não ser pelos vestígios de cinza do leito da via férrea - estavam limpos e eram cor-de-rosa, com as unhas muito bem-feitas. Se fosse maluco, era um maluco fino.

"Já vi sim", respondeu a boa senhora, "e tenho um retrato dele aqui na lareira." Era uma foto do presidente Deschanel recortada do Le Petit Journal e colocada numa moldura barata, ladeada por retratos imprecisos de Clemenceau e Joffre. O homem tinha o mesmo bigode branco e o olhar esgazeado de Paul Deschanel, mas com toda a honestidade ela foi obrigada a acrescentar: "Sinto muito, mas o senhor não se parece muito com ele."

"Bem, é verdade que eu estou de pijama,
mas isso não me impede de ser o presidente da França."

Seus protestos continuaram até que ela o fez sentar na cama; depois - enquanto ele insistia para que seu marido falasse com a subprefeitura - ela lavou-lhe os joelhos e cotovelos ralados. Como se tratasse de uma criança teimosa, colocou-o em sua própria cama desarrumada e ainda quente do calor do casal. O assentador de trilhos, enquanto isso, foi em busca do médico mais próximo.

O dr. Guillaumont chegou acompanhado de um gendarme. Pelo exame do médico, parecia que o estranho havia mesmo, como afirmava com insistência, caído de um trem. O dr. Guillaumont passou-lhe anti-séptico nas lesões superficiais e aplicou-lhe uma injeção antitetânica. A essa altura, pareceu de bom alvitre que o gendarme fosse informar o subprefeito de que havia um cavalheiro de pijama na casa do guarda-cancela que assegurava ser o presidente da França.

Era uma segunda-feira de Pentecostes, feriado oficial no país. Monsieur Leseur, o subprefeito, decidiu investigar em pessoa esse curioso incidente - mas não havia táxis. E também o telefone (nada incomum) estava com defeito.

Da estação de Montargis, Monsieur Leseur passou um telegrama para Roanne indagando sobre o trem presidencial. Estava ou não o presidente a bordo? A primeira resposta foi que o trem tinha chegado a Roanne, mas o presidente Deschanel dera ordem a seu criado de quarto para não incomodá-lo antes das oito da manhã. O subprefeito, enquanto isso, conseguiu que um farmacêutico local, Monsieur Damas, fosse levá-lo à humilde casinhola no Bois de Leveau. Ao saber que o objeto de seus esforços era um homem vestido só de pijama, Monsieur Damas, acostumado às emergências, teve o cuidado de pegar uma muda extra de roupa. Uma segunda resposta de Roanne tornou ainda mais urgente a empreitada: o presidente Deschanel não se encontrava em sua cabina.

Muitos observadores já se reuniam então no único quarto da casa do guarda-cancela, em torno da cama onde o senhor de pijama - que talvez fosse, ou não, o presidente da República - sentava-se recostado contra uma pilha de travesseiros, dirigindo os trabalhos, tentando se lembrar de como fora parar nos trilhos perto de Montargis.

Membros da equipe presidencial chegaram a tarde para confirmar que o desconhecido desorientado instalado na cama do guarda-cancela no Bois de Leveau era o presidente da França, Paul Deschanel. De Paris veio a mulher do presidente, junto com Alexandre Millerand, líder da Assembléia Nacional e o primeiro na linha de sucessão. As duas delegações deram um jeito de recompor o presidente como um embrulho desfeito. Vestiram-lhe o terno extra do farmacêutico e lhe enfiaram um par de meias brancas nos pés, enquanto ele pegava emprestados os chinelos de Dariot, o guarda-cancela. O presidente se queixou de un trou dans fa mémorie, mas apesar desse buraco na memória estava bem consciente do funesto e estranho acidente e recusou-se a voltar para Paris de trem. Uma escolta de vários automóveis levou-o então de regresso ao Palais de l'Elysée.

A história contada a imprensa por Millerand foi que o presidente Deschanel havia se recolhido cedo, para se preparar para o dia de discursos que teria em Roanne; o trem presidencial não estava indo a mais de quarenta quilômetros por hora, para garantir ao presidente uma boa noite de sono, e assim quando ele caiu não se feriu gravemente. Parecia que tinha aberto a janela da cabina e debruçado-se um pouco para tomar ar fresco. Mas a janela era mal projetada e o presidente debruçou-se demais. Os jornais logo deram o comunicado na íntegra, com editoriais fervilhando de conjeturas: faltavam substância e detalhes, de algum modo, na explicação oficial. Os chansonniers não perderam tempo para transformar a aventura em versos.

Ele não se esqueceu do seu pijama,
é um assombro, mas é assim.

Eleito em janeiro de 1920 (quando Modigliani estava morrendo no Hôpital de la Charité), o novo presidente já vinha dando sinais de uma mente instável e errática. Um conluio de ministros e senadores promovera Paul Deschanel, em detrimento de Clemenceau, numa manobra política para impedir que 'o Tigre' fosse eleito para o mais alto cargo do país. O obscuro Deschanel foi eleito presidente, mas nunca pode recuperar-se de todo de sua inesperada vitória sobre o temível herói francês, Clemenceau. As observações e o comportamento de Deschanel nas recepções públicas tornaram-se cada vez mais bizarros. Na embaixada britânica, ele fez propostas tão extravagantes que os diplomatas pensaram que estivesse bêbado. Após um discurso, assim que um grupo de alunas o presenteou com um buquê, Deschanel passou a jogar as flores, uma a uma, de volta para elas. Numa perturbadora ocasião, ele se afastou de uma delegação oficial para abraçar uma árvore à beira do caminho.

Depois do episódio do trem presidencial, Deschanel foi para o Chateau de Rambouillet, fugindo da capital e das pressões do cargo no Elysée. Certa manhã, afastou-se da árida ordem dos assuntos numa reunião de trabalho - impulso até bem natural - em direção à beira tentadora de um lago, de onde, todo vestido, adentrou pela água. Seu criado de quarto viu-o em apuros no lago e mergulhou atrás.

No outono, a breve passagem de Deschanel pelo poder chegou ao fim em Malmaison, uma instituição nos arredores de Paris para o tratamento de distúrbios nervosos. Em 23 de setembro, Millerand tornou-se o novo presidente da República.

Durante o mandato maníaco-depressivo de Deschanel, dois revolucionários da arte, brincalhões, mas sérios - Francis Picabia e Tristan Tzara - chegaram a Paris vindos de Zurique, onde haviam fundado um movimento destinado a semear anarquia nas formas estabelecidas da cultura francesa. O movimento se chamava dadá, a primeira palavra encontrada ao acaso pelos fundadores no Petit Larousse, um termo da linguagem das crianças para cavalinho de pau. Segundo os princípios do novo credo, ir de pijama em visita a Montargis, entrar de terno num lago, apaixonar-se por uma árvore eram provas do dadaísmo essencial em todos nós (até mesmo o político mais empedernido) e justamente os exemplos que o presidente da França deveria dar.

Sem dúvida alguma, Deschanel foi o precursor da era. Nesses primeiros meses de 1920 pode ter surgido a primeira evidência da década de 20 como les années folies, os anos loucos.

6 comentários:

Límerson disse...

Esse livro justificou minha anteriormente intuitiva fixação pelos anos 20.
Bom Blog!
Abraço.

Límerson

Lys Villela disse...

Fiquei muito feliz em ter acessado seu blog, pois acabo de ler a obra de Willian Wise. Tenho verdadeiro fascínio pela Paris do período entre guerras. Hemingway, Joyce, John dos Passos, Gertrude Stein, Sylvia Beach, entre tantos outros me encantam.
Adorei!
Lys Villela

Anônimo disse...

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Mon francais n'est pas tres bon, je suis de l'Allemagne.

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Cris Valmont disse...

J'apprécie vraiment les compliments.
Ne pas parler le français.
Je suis brésilien.
Un gros câlin.

Fátima Calcagno disse...

"Anos Loucos" é muito bom! Instrutivo, elegante. Amei!

Anônimo disse...

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