Os Anos Loucos - Capítulo 9: A Maré Báltica

Antes da revolução russa, o café predileto dos conspiradores bolcheviques e mencheviques havia sido o La Coupole, na place Vavin do boulevard Montparnasse. Exilados políticos como o arrebatado intelectual Leão Trotski sentavam-se ali insuflando as esperanças dos companheiros banidos, enquanto Lenin, à espera de sua hora, preferia jogar xadrez numa mesa a um canto. A derrocada social e militar da Rússia czarista possibilitou o levante comunista e por fim a tomada do poder: a guerra civil foi responsável por uma nova leva de exilados para o Ocidente e, em especial, para Paris. A antiga colônia de conspiradores, enquanto isso, viajava na direção oposta. As teorias socialistas que eles tinham tecido e discutido nas mesas de café de Zurique e Paris entraram subitamente em vigor; os exilados podiam retomar à Rússia em triunfo, preparados para dirigir o novo regime bolchevique.

Em Paris, os revolucionários foram substituídos pelos aristocratas, mas aristocratas destituídos de riqueza e privilégios.

"De repente nós todos ficamos pobres. Você fazia um cheque do Banco Imperial, mas os rublos não vinham."

Observou o compositor Igor Markevitch. Grão-duques trabalharam como maîtres, coronéis czaristas tomaram-se porteiros de hotel (os patrões achavam que os russos envergavam seus uniformes cheios de galões e dragonas com incrível distinção) e muitos foram ser motoristas de táxi, como o 'coronel Taxovich' do Lolita de Nabokov:

"Havia milhares deles no desempenho
dessa função de maluco."


Julgava-se chique contratar uma antiga dama de honra da czarina como companhia para uma viúva nova-rica; e as princesas russas eram procuradas como governantas. O ex-diretor da Academia Naval deu-se por muito feliz de arranjar um emprego de meio expediente numa firma de traduções. O príncipe Youssoupoff, o assassino de Rasputin, por algum tempo vendeu pinturas e antiguidades (e foi processado por fraude em relação a vários Rembrandts questionáveis), antes de abrir uma loja de moda que acabou indo à falência.

O embaixador Malakoff fora nomeado para chefiar a embaixada russa em Paris pelo governo de transição, mas já não tinha um governo para representar depois que Kerenski foi derrubado pelos bolcheviques. O reconhecimento da União Soviética pelas nações ocidentais ainda não fora feito. Malakoff esquivava-se as recepções diplomáticas e não era mais benquisto no Ministério do Exterior francês, embora permanecesse na vazia embaixada russa na rue de Grenelle, onde continuava a servir como uma espécie de ministro sem pasta entre o governo francês e os emigrados russos.

"Eu pareço um jornal que alguém deixa numa cadeira para mostrar que ela está ocupada."

Mas os bolcheviques não deixaram jornais nas suas cadeiras em Paris. O La Coupole ainda era o antro preferido dos deslocados russos, se bem que agora fossem os refugiados monarquistas que se sentavam, cismarentos, nas cadeiras de vime tão recentemente abandonadas pelos comunistas.

Boris Kochno, nascido na aristocracia derrotada, fugira da Rússia, aos 17 anos, através de Constantinopla, com apenas alguns volumes de poesia como bagagem - e uma foto de jornal do empresário de bale Sergei Pavlovich Diaghilev. Em Paris, o jovem refugiado e sua mãe foram acolhidos pelo pintor Sudeikin e sua mulher Vera, que por acaso eram grandes amigos de Diaghilev. (A amizade estava sujeita ao temperamento impulsivo e as constantes intrigas dos russos que viviam no exterior: muito recentemente, Diaghilev apresentara Vera Sudeikin a Igor Stravinski, pedindo-lhe que "fosse gentil, pois ele andava bastante deprimido" - e ela foi tão gentil que os dois logo se tomaram amantes.) Para Boris, o principal interesse de estar em Paris era a esperança de conhecer o grande diretor dos Ballets Russes.

Sudeikin sabia como Diaghilev desconfiava dos prodígios que lhe eram empurrados (Kochno, não sendo bailarino nem musico, era um prodígio tão-só por demonstrar sensibilidade para a música e a dança, que o próprio Diaghilev também possuía), por isso concebeu um plano pelo qual o rapaz deveria aparecer no hotel de Diaghilev com uma mensagem de sua parte. Como Diaghilev gostava de garotos, o pintor Sudeikin achou que ele se deixaria encantar por esse. Boris foi cuidadosamente instruído sobre a melhor maneira de abordar o imprevisível mestre, decorando uma série de respostas a perguntas que Diaghilev decerto iria lhe fazer.

Na rue Castiglione, 3, entre a place Vendôme e a rue de Rivoli, Kochno encontrou o ultra-sofisticado Hôtel Continental. E não foi sem espanto que viu o funcionário da recepção permitir que ele seguisse para a suíte de Diaghilev. Como depois se soube, Diaghilev estava esperando um visitante nessa mesma hora e deixara instruções na portaria para que fizessem o estranho entrar sem demora. Beppe, seu camareiro, recebeu Kochno a porta e disse-lhe para esperar. No momento seguinte, apareceu o homem grande, com o corpanzil espremido num roupão, monóculo e uma única mecha branca no cabelo preto bem penteado para trás. Foi inesperadamente caloroso ao dar as boas-vindas ao rapaz.

Boris Kochno sentiu-se desarmado. Nenhum dos cuidadosos ensaios de Sudeikin o preparara para um encontro tão cordial. Mal ele soltou sua primeira frase pronta, Diaghilev mudou de assunto para falar da Rússia, bombardeando-o com perguntas em russo sobre o país do qual Kochno tinha acabado de escapar. Uma constante nostalgia da Mãe Rússia era a sina de todos os emigrados e Diaghilev não estava imune a perda sentida por seus companheiros de exílio. Enquanto Kochno se esfalfava para trazer a tona lembranças de Moscou e São Petersburgo, procurando nomes que soassem familiares ao ex-diretor dos Teatros Imperiais (Diaghilev tinha a mesma origem social de Kochno, como ilegítimo descendente de Pedro o Grande, mas perdera o cargo ao cair em desgraça junto a administração czarista), o mestre ficou mordendo a língua, como costumava fazer quando estava imerso em pensamentos. Tirou o monóculo e olhou fixamente a meia distância, como se num átimo a própria Rússia estivesse tão próxima e vívida como o rapaz de pé a sua frente. De repente Diaghilev perguntou a Boris que idade ele tinha. "Acabei de fazer 17 anos." Deu então a mão a Boris e disse:

"Bem, voltaremos a nos ver."

No encontro seguinte, Boris Kochno foi nomeado secretário dos Ballets Russes. A nomeação era vaga, com funções indefinidas. Diaghilev parecia preferir atender ele mesmo o telefone e cuidar pessoalmente da correspondência. O rapaz, por fim, teve a coragem de indagar: "Mas qual e minha função?" Em francês, Diaghilev informou-o:

"Basta a um secretário saber tornar-se indispensável."

A partir desse momento, Boris Kochno fez-se indispensável não só a Sergei Pavlovich, como também ao bale russo.

A nobreza russa dispersa muitas vezes fazia escalas em Zurique, Berlim e Nova York, antes de procurar refúgio definitivo em Paris. Um compositor jovem e ainda de fácil adaptação como Vernon Dukelski podia achar os Estados Unidos compatíveis e até mesmo fazer carreira lá - com o nome de Vernon Duke -, compondo comedias musicais para os palcos da Broadway. Mas finalmente procuraria chegar até Paris, para ingressar no círculo mágico que rodeava Diaghilev. Sergei Prokofiev, a despeito de seu sucesso americano com O amor por três laranjas, julgou os Estados Unidos inabitáveis desde o início. Uma causa constante de irritação era que sua reputação como compositor de vanguarda não progredia com a mesma rapidez que a de Stravinski, que ficara em Paris. Os críticos americanos insistiam em se referir a Prokofiev como 'O pianista', por causa de suas excursões de concertos, e a seu frère-ennemi Stravinski como 'O compositor'. Isso sem dúvida contribuiu para a decisão de Prokofiev de se fixar em Paris.

"Radicar-se em Paris”, disse Prokofiev,
"não significa tornar-se, de imediato, parisiense."

E ele de fato resistiu, com toda sua alma russa, a se tornar parisiense. Morava com sua mãe e a mulher perto dos Invalides, longe do centro dos acontecimentos e crítico da nova música francesa. 0 espírito parisiense, que já começava a influenciar a vida e a musica de Stravinski, teve pouco efeito sobre Prokofiev: sua estréia com os Ballets Russes foi a música para Chout ou O bufão, puramente eslava no estilo e com tema derivado do folclore russo. Embora Stravinski fosse o compositor preferido de Diaghilev - ou, como Nijinski comentou: "Diaghilev não pode existir sem Stravinski, nem Stravinski sem Diaghilev" - foi a Prokofiev que o empresário recorreu para a música de Pas d'acier, o balé totalmente soviético. No entender de Diaghilev, um espetáculo que celebrava a Rússia sovietizada falaria mais ao coração de Prokofiev que ao de Stravinski, mas a escolha despertou a inveja deste, ao contrário do que antes se dava, pelo sucesso do seu rival.

Muitas coisas do Ocidente eram compatíveis e estimulantes para Stravinski; a vida em Paris satisfazia-o e ele se tornou cidadão francês. Introduzido na vida social que esvoaçava em torno das artes, sentia-se em casa nos salões de Coco Chanel e da princesa de Polignac. Já Prokofiev dirigia todas as suas energias para seu trabalho, como que para afastar a insidiosa influencia de uma cidade tão sedutora. Rígido em seus hábitos, ele era um escravo da rotina: todos os dias andava em torno da cúpula dos Invalides, numa caminhada pré-aperitivo que durava exatamente 26 minutos. Sua última composição para os Ballets Russes foi O filho pródigo, em 1929: depois disso, na condição de filho pródigo, ele voltou a União Soviética, para fazer as pazes com o novo regime e nele assumir seu lugar.

"Nem Stravinski nem Prokofiev nunca ganharam um concurso de beleza”, comentou Diaghilev, que era um entendido em beleza masculina. Stravinski era baixo, possuía grosseiras feições eslavas e se trajava com afetado exagero. Embora musculoso e em boa forma, pois fazia ginástica diariamente, denotava certa hipocondria. A alimentação natural ainda não era um modismo, mas Stravinski muitas vezes se impunha uma dieta bizarra que ele mesmo havia concebido: batatas cruas e tomates temperados com limão e azeite. Uma vez, no restaurante em frente da catedral ortodoxa russa na rue Daru, Stravinski fez o pedido de seu famoso repasto cru em companhia do compositor Nicolas Nabokov. Este não conseguiu terminar suas cotelettes Pojarski; mais que depressa, Stravinski passou para seu prato o que sobrara da comida do outro, misturou com creme de leite e devorou a iguaria dizendo: "Isso é só para espantar a batata crua que está no meu estômago."

Despertar espanto era um dos grandes feitos do compositor, como se a cada vez que ele empreendia uma composição pudesse ouvir o "Me dê um susto!" de Diaghilev. A sagração da primavera causou o tipo de excitação e escândalo que fazia os Ballets Russes tão coerentemente espantosos. (Diaghilev sabia muito bem do valor da controvérsia para qualquer apresentação nova: e sempre pode contar com Stravinski para romper as barreiras da tradição musical.) Prokofiev reagia a cada um dos triunfos de Stravinski de forma previsível: não havia nenhuma musicalidade, declarou ele, em O pássaro de fogo; sobre o oratório Oedipus rex, fez o seguinte comentário sarcástico:

"O libreto é francês (de Cocteau), o texto é latino, o tema é grego, a música é anglo-germânica e o dinheiro é americano - o verdadeiro cosmopolitismo."

A relação muito estreita de Diaghilev e Stravinski - cada qual sempre pensando que manipulava o outro - foi uma curiosa associação de contrários, mas ao mesmo tempo uma parceria para mútua inspiração. Ironicamente, foi o ancien régime e não a nova ordem na Rússia que engendrou esses dois revolucionários que a revolução política deixou intactos.

As feições nada atraentes e a baixa estatura de Stravinski não o impediram de ser mulherengo e, de certa forma, um dândi. Sua amizade com o elegante Bakst pode ter influenciado o gosto de Stravinski pelas fatiotas da moda, assim como a breve ligação com Coco Chanel (discretamente mantida afastada de sua esposa Catherine) decerto enriqueceu seu guarda-roupa. Chanel condescendeu tanto com sua vaidade quanta com sua hipocondria, comprando-lhe gravatas Hermés e fornecendo-lhe um sobretudo de astracã quando ele se queixou de pegar resfriados em salas de ensaio com correntes de ar. O caso com Chanel aconteceu quase as vésperas de sua fatídica apresentação a Vera Sudeikin.

Os dois radicais inovadores da música e da dança do século XX, Stravinski e Diaghilev, eram não obstante conservadoramente religiosos - Diaghilev, se não na prática, no espírito - e extremamente supersticiosos. Stravinski mantivera-se fiel a Igreja Ortodoxa Russa de sua juventude e regularmente assistia a missa na catedral da rue Daru. Como precaução adicional contra malefícios e azares, ele pendurava amuletos e medalhas religiosas em sua roupa de baixo. Para Diaghilev, até mesmo uma curta viagem através do canal da Mancha era urna experiência terrível, pois ele se deixava perseguir pela enervante previsão de uma cigana de que morreria na água.

"Em primeiro lugar, sou um charlatão", era assim que Diaghilev descrevia a si mesmo, "mas um charlatão com estilo. Em segundo, sou um grande sedutor; e, em terceiro, minha desfaçatez não tem limites."

Nem bailarino, nem músico, nem pintor, nem homem de negócios, Diaghilev conseguiu ser tudo isso - um gênio em fazer convergir todas as artes no palco e em substituir a falta de dinheiro por seu charme.

A não ser quanto ao charme, a desfaçatez e o estilo, menos poderia ser dito dos demais charlatães que inundaram Paris com a onda russa.

O dr. Sergei Voronoff anunciou em janeiro de 1920 que pretendia estabelecer uma fazenda de criação de macacos no sul da França, procurando indiretamente subscrições do público e apoio do governo francês. Ele já conseguira reconhecimento oficial como ilustre cientista do Collège de France, por suas singulares experiências com glândulas de macacos. Dizia-se que tais glândulas, enxertadas em carneiros, aumentavam-lhes o vigor e 0 tamanho do corpo, com uma subsequente melhora da qualidade da lã. Dos carneiros, o dr. Voronoff passou para os seres humanos. Muitos acreditaram que ele pudesse rejuvenescer os idosos com seu tratamento de glândulas de macacos, e sem demora ele conquistou uma clientela abastada, cheia de esperanças de um retorno a juventude através das injeções Voronoff.

Outro médico, Ivan Manoukhin, que trabalhara no Hospital da Cruz Vermelha em Kiev, apregoava ter curado mais de oito mil casos de tuberculose com aplicações de raios X no baço. O tratamento visava reativar ou restaurar essa glândula, limpando o sangue dos bacilos da tuberculose. Ao eclodir a guerra civil na Rússia, Manoukhin foi para Paris, disposto a montar uma c1ínica particular no rico distrito de Passy. (De modo geral, havia duas colônias russas separadas em Paris: os pobretões tendiam a radicar-se no 15º arrondissement, enquanto os ricos - o barão Sergei Jastrebzoff, a baronesa Héloise d'Oettengen, a princesa Nathalie, o grão-duque Paul - encontravam-se no 16º arrondissement, Passy, na Rive Droit.)

Notícias do tratamento heterodoxo de Manoukhin chegaram ao conhecimento de Katherine Mansfield, que vivia então na Suíça. A contista enfrentava o desespero da tuberculose desde 1917, quando fora descoberta uma mancha em seu pulmão. Já em 1918 ela havia embarcado numa desassossegada viagem a procura de um lugar do mundo onde pudesse praticar sua arte e prolongar sua vida: os médicos lhe tinham dito que ela não sobreviveria senão mais quatro anos, nas melhores condições possíveis. Naturalmente o relato dos êxitos de Manoukhin com os raios X trouxe-lhe novo alento. Do total de trezentas libras esterlinas que recebia por ano do seu pai, "poupei cem libras para esta última chance", como ela mesma escreveu.

Katherine Mansfield mudou-se para Paris, hospedando-se primeiro no Victoria Palace Hôtel, por vinte francos ao dia, e depois, quando suas reservas diminuíram, no Hôtel Sélect, pela metade do preço. Apos uma primeira consulta - com a ajuda de um interprete, pois Manoukhin não falava inglês e apenas arranhava o francês -, o especialista russo anunciou que poderia curá-la completamente. Haveria uma série inicial de 15 séances, a trezentos francos cada, ou 4.500 francos ao todo - uma soma bem de acordo com o elegante endereço em Passy. Depois disso a paciente deveria fazer uma mudança de clima, repousar por algum tempo e voltar para uma série de dez tratamentos adicionais. Em janeiro de 1922, Katherine entregou-se nas mãos do dr. Manoukhin e submeteu-se ao bombardeio do baço por radiação.

Malgrado as eventuais suspeitas que nutrisse quanto a cura de Manoukhin, e1a estava fascinada com o médico russo - como de resto o era por tudo que fosse russo. Ele havia sido, certa época, médico de Máximo Gorki e esse vinculo com a literatura russa mostrou-se uma atração a mais; Manoukhin pode colocar Katherine Mansfield em contato com o setor literário da colônia de emigrados russos. Através de Manoukhin, e com seus próprios contos influenciados pe1a obra de Anton Tchekhov, e1a conheceu Alexander Salzman, um amigo da atriz-viúva de Tchekhov. Conheceu também o escritor Ivan Bunin, num encontro um tanto quanta desagradável, pois Bunin não partilhava seu entusiasmo por Tchekhov.

Como Manoukhin lhe prescrevera um regime para engordar, Katherine em abril já ganhara um pouco de peso, mas essa era a única indicação de melhora. Os raios X, nessa época, não podiam ser bem focados nem controlados com eficácia. Ela estava começando a sofrer os efeitos secundários da radiação: neurite, tensão cardíaca, uma constante sensação de ardência e náusea. Enquanto agonizava ao passar pelas 15 primeiras sessões de terapia, Katherine Mansfield escreveu numa carta: "Tenho a impressão de que M. (Manoukhin) é realmente um bom homem. Mas também tenho uma furtiva impressão (uso a palavra furtiva de propósito) de que ele é uma espécie de impostor sem escrúpulos." Seja como for, ela não voltou para a série final de mais dez aplicações de raios X com Manoukhin, pois no intervalo havia transferido toda sua esperança e sujeição para outro russo no exílio.

Através do matemático Piotr Uspenski (ou P. D. Ouspenski), Katherine conheceu um guru carismático da Rússia armênia, Georgei Ivanovitch Gurdjieff, fundador e diretor do Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem. Gurdjieff chegara a Paris através de tortuosas rotas comerciais: na condição de mercador de tapetes e diamantes, ele escapara da revolução junto com um grupo de seguidores no instituto original que havia fundado em São Petersburgo; fugira da Rússia através da Geórgia e a seguir fizera a travessia para Constantinopla com um carregamento de caviar.

Em Paris, Gurdjieff alugou para seus discípulos a Escola Dalcroze de Eurritmia, um cenário adequado ao programa de danças rituais que era parte da sua filosofia de iluminação. O instituto foi financiado a princípio pelos lucros obtidos com a venda dos tapetes e pedras preciosas contrabandeados para fora da Rússia: cem mil francos. Em sua autobiografia, encontros com homens notáveis, Gurdjieff se propõe a explicar suas transações financeiras para responder a uma questão retórica colocada por ele mesmo. O capítulo em pauta é dedicado a narrativa de suas viagens pelo Turquestão e o Cáucaso, comerciando com antiguidades e tapetes e depois, em Paris, com a manipulação de cotas de petróleo e um investimento referente a um cabaré não especificado em Montmartre, que Gurdjieff vendeu com grande margem de lucro. Além disso, Gurdjieff atuou como vendedor de ícones, obras de esmalte cloasonado e outros tesouros familiares levados para fora da Rússia por refugiados monarquistas.

No Turquestão, Gurdjieff estudara as danças religiosas dos sufis e vivera em comunidade com tribos nômades da Ásia Menor - foi a partir dessas experiências que elaborou sua teoria do 'desenvolvimento harmonioso do homem'. Figura que causava forte impressão, com seu crânio raspado, seus olhos mongóis e um bigodão preto de cossaco, Gurdjieff alimentou boatos a seu respeito - de que era um lama sagrado, ou de que fora o principal agente secreto do czar no Tibet. Segundo a filosofia de Gurdjieff, a iluminação poderia ser conquistada por esforço consciente, pelo auto-conhecimento e pelo sofrimento voluntário. Gurdjieff rejeitava a noção cartesiana de um universo dividido em matéria e espírito: concentrando-se na unicidade entre corpo e mente, seus seguidores tentavam se livrar do alcoolismo, da dependência de drogas, de doenças somáticas e do próprio ser.

Ao sucesso das próprias transações financeiras, Gurdjieff somou o apoio de lady Rothermere, mulher de um magnata da imprensa britânica, para adquirir Le Prieuré, um castelo perto de Fontainebleau. Ali, a apenas uma hora de Paris, instalou uma comunidade permanente para si mesmo e seus discípulos.

As reações ao fenômeno Gurdjieff, se bem que muito variadas, eram quase unanimemente negativas no círculo mais próximo a Katherine Mansfield. D. H. Lawrence, também tuberculoso, considerava o instituto uma grande picaretagem e Gurdjieff um charlatão da pior categoria. O marido de Katherine, John Middleton Murry, que já estava, na ocasião, afastado dela, viu a distância entre eles aumentar por causa de sua decisão de se envolver com o ocultismo do mestre russo. Mas Gurdjieff, como Manoukhin, fez a desesperada tuberculosa uma promessa de cura - uma cura completa antes do Natal.

Foi mais do que a recuperação da saúde o que atraiu Katherine Mansfield para Gurdjieff, pois ela estava determinada a romper com uma vida que já ia mal sob diferentes aspectos, e não só em virtude dos pulmões afetados. Ela acabara de redigir um testamento e, acreditando talvez que de qualquer modo se aproximava da morte, pode ter desejado atingir uma iluminação espiritual antes que seu corpo a traísse pela última vez. Foi como uma penitente religiosa que ingressou em Le Prieuré; retirou-se do mundo para então submeter-se ao regime de disciplina, humilhação e negação de si mesmo imposto por Gurdjieff.

De início Katherine ficou no prédio principal, conhecido como o Ritz, onde se hospedavam as celebridades em visita e onde o próprio Gurdjieff morava. ("Em todas as circunstâncias da vida", escreveu o mestre, "tente unir o útil ao agradável.") Com o passar do tempo, Gurdjieff transferiu Katherine Mansfield para um cômodo mal mobiliado e sem aquecimento no dormitório dos trabalhadores. Destacada para juntar-se ao pessoal da cozinha, ela tinha de descascar batatas e cebolas até seus dedos sangrarem. Sua roupa posta para lavar foi roubada; o frio e a umidade de sua gélida cela a faziam sofrer - e no entanto ela estava feliz. As cartas que escreveu nessa época refletem a melhora do seu estado de espírito, junto a incessantes referencias ao frio.

"O frio aqui é muito intenso - é frio, cada vez mais frio ... Tenho de viver com meu casaco de pele. Enrolo-me nele como em uma armadura celestial e uso-o sem parar dia e noite."

Gurdjieff acreditava que Katherine poderia melhorar ainda mais se inalasse regularmente o bafo das vacas; providenciaram-lhe por isso uma água-furtada sobre as baias do estábulo, onde ela compartilhava o espaço da respiração bovina e as vezes bebia leite fresco do próprio balde da ordenha. Adorava sua água-furtada particular e cheia de feno no grande estábulo (com certeza mais quente do que seu quarto) e tinha um amor todo especial pelas vacas de Gurdjieff. Nas horas de folga - a rotina era fixa e rígida no Prieuré - Katherine estudava russo. Como por tudo que havia nessa nova vida, estava apaixonada pelo 'russismo' de Gurdjieff e sua comunidade de discípulos.

Gurdjieff, enquanto isso, envolvia-se com o projeto de reformar um velho hangar de avião, nos domínios do Prieuré, para transformá-lo em pavilhão de dança. Aí seriam realizadas as danças rituais, com o mestre a supervisioná-las do alto de um tablado, uma espécie de trono decorado com tapetes persas. (Edmund Wilson assistiu aos exercícios de dança, durante os quais se exigia que os dançarinos, a intervalos, mantivessem-se imóveis, e comentou: "Pareciam uns zumbis treinados.") Com a aproximação do Natal, previu-se a inauguração do salão de danças como um pano de fundo para as festividades da data.

Membros da comunidade, entre os quais Katherine, dedicavam longas horas para aprontar o salão de danças a tempo para o ano-novo. Ela resolveu convidar John Middleton Murry para uma reunião marido-e-mulher e ele chegou a tempo de comemorar em companhia dela a passagem do ano. A visita foi mais que uma reunião: havia uma perspectiva de os dois fazerem as pazes, certamente uma aceitação, pelo marido, da decisão tomada por Katherine de viver no Prieuré. Murry achou que sua mulher estava muito mais bem-disposta e que talvez o tratamento de Gurdjieff tivesse efeito benéfico sobre sua tuberculose. Contudo, na noite de 9 de janeiro de 1923, Katherine mostrou-se cheia de viço, anormalmente excitada e ativa em excesso - como se quisesse que Murry visse como estava feliz. A caminho do quarto, subiu a escada correndo, na frente dele. Mas, antes de chegar ao fim, virou-se para ele com um ar estranho e começou a vomitar sangue. Quando pode falar, anunciou com muita calma:

"Acho que vou morrer."

Dois médicos atenderam-na de imediato: ainda aplicaram sacos de água quente em seu corpo frio, mas ela já estava morta. Murry, que fora até lá para celebrar o ano-novo com a esposa, ficou para assistir a seu enterro. A cerimônia foi realizada em Fontainebleau, sendo Katherine Mansfield enterrada no cemitério local.

Suas últimas cartas dão testemunho de uma felicidade no Prieuré acima de qualquer outra que ela tivera na vida, embora pareça certo que sua estada no Instituto de Gurdjieff precipitou sua morte. Em seus cadernos estavam escritas palavras e frases para as quais ela queria aprender os equivalentes em russo: Estou com frio. Lenha. Fumaça. Fósforos. Chama. Forte. Força. Acender o fogo. Não há mais fogo. Porque o fogo apagou.

4 comentários:

Mari disse...

Oi, Cris. O blog como sempre está incrível! Fiquei feliz de ver seu comentário no meu Blog,sobre o lindo livro Memórias de uma Gueixa (ainda não vi o filme), mas não sei o que houve, sua mensagem desapareceu...Será um prazer receber sua visita novamente!

Anônimo disse...

Adorei o teu blog e vc parece ser encantadora...

Alam

Cris Valmont disse...

Obrigada, Alam!
Foi muito bom te conhecer...
Beijos

Dubco disse...

O que melhorar? Belo blog. Belo texto. Charmant como sua foto. Quem deve ser você?
Teus Anos Loucos são uma festa de informação e de vontade.
Keep walking. Um prazer de ler.
Dubco