História da Moda - início do Séc. XX

Logo no início do século XX, aconteceu em Paris a Exposition Universelle de 1900, evidenciando o entusiasmo pelo progresso e a euforia das classes dominantes que se sucediam em exposições internacionais. As novas técnicas e os recursos da indústria possibilitavam novas exibições de elegância e luxo.

Em 1906, Poiret inovou afrouxando a silhueta formal da mulher, o espartilho, que dava a famosa forma de "S", liberando muito mais o corpo feminino. Contudo, o espartilho foi abolido em 1910 pelas autoridades de saúde, tendo sido substituído por cintas elásticas. O estilo de roupas retas e simples de Poiret se constitui numa influência decisiva para a moda no século XX, que será marcada por uma tendência generalizada à simplificação.

No século XX, a moda deixa de ser encarada como uma atividade frívola. A moda se democratiza e se torna ao alcance de todos, por causa da industrialização de roupas em grande escala, e, principalmente, devido à difusão feita pelos meios de comunicação em massa.

Com a Primeira Guerra Mundial, as sufragistas, as epidemias, o desastre do Titanic e a popularização do cinema mudo, o mundo se transformou, gerando reflexos na moda. Sobretudo as influências da Grande Guerra convencem que a moda está diretamente ligada às modificações que atingem a sociedade em seus vários aspectos, pois a vida social ficou limitada, os espetáculos praticamente desapareceram, as mulheres de classe alta foram convocadas para ajudar em enfermarias, orfanatos e outros setores, e, as de classe mais baixa foram exercer ofícios masculinos em fábricas.

As mudanças na vida social, de certa forma tornaram mais aceitáveis as simplificações antes propostas por Paul Poiret. Nessa época surgiu o soutien, criado por Mary Phelps. A influência oriental veio à tona pelas mãos de Paul Poiret, que inseriu modelos exóticos, mas simples e coloridos. Mais tarde, ele se aliou aos fabricantes de sapatos Perugia para criar modelos com jóias.

Coco Chanel, que criava chapéus exóticos antes da Guerra, introduziu na moda o jérsei, que não amassava. O nome de Chanel aparece pela primeira vez em 1915, quando ela desenhou três modelos de tailleurs.

Muitos materiais novos começaram a ser trazidos para a moda, como a borracha. Essa fusão resultou no primeiro tênis, em 1917, chamado Ked's.

No pós-guerra, o período conhecido como Années Folles (Anos Loucos), a alta-costura voltou-se para uma nova clientela: atrizes, atores, escritores e outros artistas, além de americanos que enriqueceram com a guerra, e uns poucos nobres que subsistiram. Esse novo público frequentava boates da moda, onde o jazz fazia sucesso. Montparnasse tornou-se o "bairro da moda" em Paris. Segundo Hemingway, Paris era, para os artistas, uma "permanente festa”. Conforme Cláudia Garcia:

"A era do jazz foi uma década de prosperidade e liberdade, animada pelo som das jazz-bands e pelo charme das melindrosas - mulheres modernas da época, que frequentavam os salões e traduziam em seu comportamento e no modo de vestir o espírito dos novos tempos".

Durante os anos 20, além da ópera ou do teatro, também se frequentava os cinematógrafos, que exibiam os filmes de Hollywood e seus astros, como Rodolfo Valentino e Douglas Fairbanks. As mulheres copiavam as roupas e os trejeitos das atrizes famosas, como Gloria Swanson e Mary Pickford. A cantora e dançarina Josephine Baker também provocava alvoroço em suas apresentações, sempre em trajes ousados.

As mulheres, cada vez mais independentes e com poder de voto, decidiram abandonar de vez as antigas regras, subindo as barras das saias e usando modelos de vestidos (bem) mais abertos e soltos. A cintura desceu em modelagens de forma reta. Os cabelos ficaram curtinhos. Os chapéus, menores. A maquiagem e os cigarros foram permitidos. Os ídolos do cinema representavam todos esses ideais de beleza e comportamento.

O gosto pelo exótico, tanto nas artes como no marketing, na moda e até na mobília eram tendências fortes desta década, que se fortaleceram com a descoberta do túmulo de Tutankamon no Egito, em 1922. O gosto por materiais reluzentes se popularizou, assim como pelos tecidos sintéticos.

A mulher, que havia se tornado capaz de abandonar uma vida de futilidades, queria valorizar-se, tirar os véus que encobriam seu corpo, fumar, dirigir automóveis, usar cabelos bem curtos. A moda passou a misturar componentes masculinos e femininos.

Foi a era das inovações tecnológicas, da eletricidade, da modernização das fábricas, do rádio e do início do cinema falado. Em 1925, pela primeira vez, os surrealistas mostraram seus trabalhos em Paris. Entre os artistas estavam Joan Miró e Pablo Picasso.

Poiret, que durante a guerra fechou sua maison e alistou-se, não recuperou seu status anterior. Assim mesmo, em 1918 trouxe do Marrocos nova fonte de inspiração. Fabricou mantôs de estilo árabe, em lã clara, e vestidos de verão com bolsos aplicados. Utilizou também, com audácia, materiais novos e procurou simplificar a forma de seus modelos, acentuando os contornos do corpo feminino. Para alguns autores, suas criações do pós-guerra são as mais belas, mas o fato é que nessa época ele estava posto de lado, e surgiam novos costureiros. Com isso, teve fim a moda de influência oriental que tanto marcou o período anterior.

A grande revolução da década ocorre em 1925, quando os trajes femininos encurtaram-se, indo até pouco abaixo dos joelhos. A cintura do vestido ou o cós da saia ficava logo acima dos quadris, onde o corpo da mulher ainda é largo, escondendo a cintura verdadeira, e o busto não era salientado, pelo contrário, era escondido. Uma tendência andrógena, masculinizada.

A década de 20 foi da estilista Coco Chanel, com seus cortes retos, capas, blazers, cardigãs, colares compridos, boinas e cabelos curtos. E o surgimento do que hoje chamamos de "pretinho básico" data de 1926, ano em que a revista "Vogue" publicou uma ilustração do vestido criado por Chanel - o primeiro entre vários que a estilista iria criar ao longo de sua carreira. Durante toda a década Chanel lançou uma nova moda após a outra, sempre com muito sucesso.

Outro nome importante foi Jean Patou, que se destacou na linha "sportswear", criando coleções inteiras para a estrela do tênis Suzanne Lenglen, que as usava dentro e fora das quadras. Suas roupas de banho também revolucionaram a moda praia. Patou também criava roupas para atrizes famosas.

Os anos 20, em estilo art-déco, começou trazendo a arte construtivista - preocupada com a funcionalidade, além de lançamentos literários inovadores, como "Ulisses", de James Joyce. É o momento também de Scott Fitzgerald, o grande sucesso literário da época, com o seu "Contos da Era do Jazz".

Toda a euforia dos "felizes anos 20" acabou no dia 29 de outubro de 1929, quando a Bolsa de Valores de Nova York registrou a maior baixa de sua história. De um dia para o outro, os investidores perderam tudo, afetando toda a economia dos Estados Unidos, e, consequentemente, o resto do mundo. Os anos seguintes ficaram conhecidos como a Grande Depressão, marcados por falências, desemprego e desespero.

A década de 30 começou com a Grande Depressão e terminou com a Segunda Grande Guerra. Saía de moda a ostentação.

Diferentemente dos anos 20, que havia destruído as formas femininas, os 30 redescobriram as formas do corpo da mulher através de uma elegância refinada, sem grandes ousadias. Em geral, os períodos de crises não são caracterizados por ousadias na forma de se vestir.

Em tempos de crise, materiais mais baratos passaram a ser usados em vestidos de noite, como o algodão e a casimira. O uso de tecidos sintéticos contribuiu para que as diferenças das diversas classes sociais, em linhas gerais, diminuíssem.

A moda dos anos 30 descobriu o esporte, a vida ao ar livre e os banhos de sol. Os mais abastados procuravam lugares à beira-mar para passar períodos de férias. Seguindo as exigências das atividades esportivas, os saiotes de praia diminuíram, as cavas aumentaram e os decotes chegaram até a cintura, assim como alguns modelos de vestidos de noite. O corte enviesado e os decotes profundos nas costas dos vestidos de noite marcaram os anos 30, que elegeram as costas femininas como o novo foco de atenção. Alguns pesquisadores acreditam que foi a evolução dos trajes de banho a grande inspiração para tais roupas decotadas.

Um acessório que se tornou moda nos anos 30 foram os óculos escuros. Eles eram muito usados pelos astros do cinema e da música. Aliás, o cinema foi o grande referencial de disseminação dos novos costumes. Hollywood, através de suas estrelas, como Katharine Hepburn e Marlene Dietrich, e de estilistas, como Edith Head e Gilbert Adrian, influenciaram milhares de pessoas.

Por outro lado, com a economia em caos, a chegada de Hitler ao poder, o comunismo em seu ápice e a população sem recursos, surgiu um amplo espaço no imaginário para os sonhos e os desejos. Astros como Jean Harlow, Greta Garbo e Fred Astaire estrelavam filmes falados, já popularizados. O cinema investiu com força nesses desejos, amplamente assegurados pela moda. A moda passou a criar roupas para todas as ocasiões, e a continuar as experimentações da década anterior. As cores eram fartas, incluindo tons fortes como o "shocking pink" de Elsa Schiaparelli. A surpreendente italiana Elsa Schiaparelli iniciou uma série de ousadias em suas criações, inspiradas no surrealismo. Outro destaque é Mainbocher, o primeiro estilista americano a fazer sucesso em Paris. Seus modelos, em geral, eram sérios e elegantes, inspirados no corte enviesado de Vionnet.

Nessa época também surgiu o sapato plataforma para as mulheres, e as sandálias tornaram-se mais populares, juntamente com as meias de nylon, impulsionadas pelo glamour da moda. Para os homens, os estilos de calçados também começaram a se diferenciar, deixando as botas um pouco de lado. Movimentos artísticos, como o Art-Deco, e mais tarde o Surrealismo também foram fontes inspiradoras para os criadores, provando que moda, arte e movimentos culturais podiam andar lado a lado.

Nessa época, o termo prêt-à-porter ainda não era usado, mas os passos para o seu surgimento eram dados pela butique, palavra então muito utilizada que significava "já pronto". Nas butiques surgiram os primeiros produtos em série assinados pelas grandes maisons. No final dos anos 30, com a aproximação da Segunda Guerra Mundial, que estourou na Europa em 1939, as roupas já apresentavam uma linha militar, assim como algumas peças já se preparavam para dias difíceis, como as saias, que já vinham com uma abertura lateral, para facilitar o uso de bicicletas. Muitos estilistas fecharam suas maisons ou se mudaram da França para outros países. A guerra viria transformar a forma de se vestir e o comportamento de uma época.

 

9 comentários:

Clara disse...

Este blogue revela qualidade na pesquisa e na sua apresentação. Gostei mesmo muito de o conhecer.


Beijinhos

Anônimo disse...

tá muito bom

Anônimo disse...

legal muito bom ,me ajudou a fazer um trabalho da faculdade sobre moda!!!

Anônimo disse...

Amei o blog, perfeitamento perfeito.

Ana Carol. disse...

Este blog possui conteúdos realmente muito interessantes. Parabéns pelo trabalho! Obs.: gostaria de saber que referência utilizou neste artigo, pois gostaria de citá-lo em um trabalho.

Cris Valmont disse...

Oi Ana, obrigada por prestigiar meu blog e fico muito feliz que ele tenha te ajudado. Esse post foi extraído de um livro intitulado A Moda no Século XX da autora Maria Rita Moutinho publicado pela editora SENAC em 2000.

Maria Levy disse...

A Franca teve muitos iconos da moda, e e muito legal que a gente possa comprar por exemplo oculos vogue e varias roupas que chegam a todas partes do mundo.

Andressa disse...

Adorei,sem palavras!Uma pesquisa muito bem feita,muita qualidade,adorei.E esse video no final então??Eu que sou apaixonada por coisas de epoca,retro,moda,anos 20,fiquei louca com isso!Parabens pelo blog,virei fã

Cris Valmont disse...

Obrigada Andressa... fiquei muito feliz que tenha gostado... Tb amo demais essa época!