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Os Anos Loucos - Capítulo 8: No Mundo das Melindrosas

Antes da guerra, Gabrielle (Coco) Chanel era compartilhada por dois ricos amantes num ménage à trois que se movia das terras e do pavilhão de caça de Arthur Capel a Paris, onde Chanel foi instalada em seu próprio apartamento no térreo do hôtel particulier de Etienne Balsan. Para o francês Balsan, Coco era a companheira charmosa que ele podia exibir no Delmonico's e no Maxim's, uma conquista tão decorativa em público quanto sedutora na intimidade. O inglês 'Boy' Capel considerava-a mais que uma cocote eventual. A mulher magra e de cabelos negros da Auvergnate se vestia de modo simples, no entanto com muito apuro, o que não correspondia a sua origem humilde. Ninguém teria acreditado naquilo que a própria Chanel, ao longo de toda a vida, empenhou-se em ocultar: ela havia crescido na pobreza rural; abrira caminho em Paris no circuito dos music-halls e penetrou no beau monde com a ajuda de amantes como Balsan e Capel.

Como Chanel tinha talento para desenhar e a ambição de fazer negócios, Capel montou uma chapelaria para ela, bem perto do Hotel Ritz para garantir-lhe clientela abastada. Seus chapéus foram um sucesso: Chanel provou estar em seu elemento entre as etiquetas exclusivas e os exigentes compradores da place Vendôme. Suas aspirações ultrapassavam o ramo da chapelaria: Coco Chanel pretendia tomar-se modista da sociedade. Quando ainda desenhava chapéus para a loja, observou uma noite, no teatro, uma platéia de mulheres com roupas tão rebuscadas quanta as das personagens de Molière no palco, e murmurou para Capel uma profecia e promessa:

"Isso não pode continuar assim.
Vou vesti-las de preto, e com simplicidade."

Os Anos Loucos - Capítulo 7: Grana Preta e Pequenas Revistas

Se Hemingway quisesse realmente ser um escritor, disse-lhe Gertrude Stein, ele teria de largar o jornalismo.

"Se você continuar trabalhando para jornais, nunca verá as coisas, verá apenas palavras, e isso não vai dar certo... "

Embora Hemingway dependesse a princípio, para uma sobrevivência apertada, de missões no exterior para o Toronto Star, viu que havia verdade na advertência da srta. Stein. O jornalismo contribuíra muito para o estilo despojado de Hemingway - fragmentos de despachos noticiosos, experiências e observações por ele adquiridas como correspondente iriam aflorar como as cortantes e concentradas vinhetas literárias de seu primeiro esforço, Em nosso tempo..., mas sua prosa jornalística teria tido efeito insignificante e finalmente destrutivo sobre sua ficção. Hemingway confiava na opinião de Gertrude Stein em questões literárias; ele mostrava seus manuscritos tanto a ela quanto a Pound, em separado.

"Ezra acertava a metade do tempo e, quando errava, errava tanto que ninguém tinha dúvida. Gertrude acertava sempre."


Os Anos Loucos - Capítulo 6: Recém-Chegados

"Essa Paris me abalou dos pés a cabeça"

Escreveu Joan Miró para casa, acrescentando: "no bom sentido." Ele estava abalado, surpreendido pelo novo e bombardeado por sensações, mas incapaz a princípio de traduzir a experiência na tela. O tímido e introvertido catalão andava pelas ruas da grande cidade olhando tudo, e em silêncio.

Tanto Miró quanto Picasso eram de Barcelona, mas o caráter e o talento opunham-nos como catalães. Picasso pode ter dado as costas a velhos amigos dos anos cubistas, no entanto foi extremamente expansivo ao receber o recém-chegado Miró, assumindo o papel de irmão mais velho e mentor do seu colega espanhol: instalou-o num quarto de hotel na rue Notre-Dame-des-Victoires, onde moravam muitos de seus compatriotas. Picasso lembrava-se da sua sofrida transição para a efervescente capital das artes e da necessidade que ele havia sentido de conviver com espanhóis. Para facilitar o lançamento de Miró no mundo artístico parisiense, Picasso apresentou-o a seu marchand, Paul Rosenberg. E também comprou duas pinturas de Miró, um modo ainda mais eficaz de expressar interesse autêntico pelo talento do artista mais novo.

Nos primeiros meses, Miró perambulou pela cidade estranha como alguém deslocado, oprimido por uma turbulência de impressões e imagens. Ao voltar para seu desolado quarto de hotel por trás da Bolsa, era incapaz de pegar num pincel ou de fazer um esboço.

"Toda a doçura que há aqui penetra-me até a medula"

Os Anos Loucos - Capítulo 5: Os nós no rabo de Picasso

"Picabia é o homem que deu nós no rabo de Picasso."
Ezra Pound


“Sim", lamentou-se Gertrude Stein, "a velha turma sumiu." Nisso que ela o dizia, porém, um ativo contingente da velha turma, a turma dela, já estava se movendo de novo para suas posições de antes da guerra. Paris, como uma tela de Vallotton, voltava progressivamente a vida. (Quando Vallotton fez seu retrato, Gertrude Stein observou como era obsessivo o método como ele pintava da esquerda para a direita, começando no alto da tela e descendo então para a seção seguinte, até que toda a superfície estivesse coberta de tinta e o retrato completo.) Lentamente, arrondissement por arrondissement - e particularmente em Montparnasse, que tomara o lugar de Montmartre como o último posto avançado da vanguarda -, o retrato começou a definir-se e a ganhar cor.

Os alemães tinham fracassado duas vezes em avançar pelo Marne para uma invasão de Paris, mas agora estava ocorrendo uma invasão em tempo de paz. Grandes colônias de desenraizados - emigrantes russos, aos montes - juntavam-se aos soldados de regresso apinhados na capital. Da América, "os intelectuais mais jovens e independentes foram subindo pela mais longa prancha de embarque do mundo", como Malcolm Cowley visualizou:

"a grande migração para os novos campos da mente".

Os Anos Loucos - Capítulo 4: Apresentações

Os recém-chegados a Paris não sabiam que os preços tinham quadruplicado desde o começo da guerra. Alguns produtos custavam mais de dez vezes o seu valor: os cigarros subiram 100%; o sabão, 500%.


O desemprego era grave, naturalmente, após a desmobilização do maior exército que a França já havia convocado; as pensões dos idosos quase não valiam mais nada. Mas a horda de invasores pouco ligava para o preço do pão, majorado oficialmente de cinquenta para noventa cêntimos. A drástica desvalorização do franco francês era apenas um dos motivos que atraíram à Paris a primeira leva de americanos. No mesmo dia em que os jornais anunciaram o aumento do pão, 1º de janeiro de 1920, o dólar estava valendo 26,76 francos - uma única nota das 'verdinhas' dava para comprar pão para o mês inteiro.

As antigas regiões industrializadas no Nordeste da França foram devastadas e despovoadas - e não só a francesa, mas a maioria das economias européias se arruinaram com a guerra - enquanto os Estados Unidos prosperaram no período 1914-18, sendo a maior potência industrial do mundo já no começo da década de 20.

O aspecto externo de Paris mantinha-se, porém, inalterado: a cidade sorria sedutora para seus visitantes, ainda que, por trás da fachada, prevalecesse uma pobreza de recursos e espírito. Os que tinham dinheiro - ouro, ou moeda resgatável em ouro - eram os novos peregrinos. Após a crise financeira de 1924-26 na França, o dólar dispararia para uma cotação máxima de cinquenta francos. A falta de estabilidade econômica abriu caminho para uma rica invasão da França por expatriados com dólares. Por apenas oitenta dólares um americano comprava uma passagem em classe turística para atravessar o Atlântico; os aventureiros de verdade poderiam chegar até Le Havre através do trabalho, "metendo a mão na massa" nos fétidos porões dos navios boieiros. Uma modesta mesada vinda de casa daria para bancar um americano em Paris pelo que parecia ser para sempre - os ganhos com a moeda tornavam essa primeira experiência de Grand Tour possível.

Os Anos Loucos - Capítulo 3: Notícias de Paris

Durante as brincadeiras de Vita Sackville-West com Violet Trefusis, o marido de Vita, o diplomata Harold Nicolson, estava servindo na conferência de paz de 1920 em Versalhes. O fim da Guerra para Acabar com Todas as Guerras havia levado os Quatro Grandes ao Hôtel Crillon, com sua vista para o trânsito dos automóveis e carruagens de aluguel restauradas em torno do obelisco da place de la Concorde, para contendas sobre questionáveis promessas e tratados secretos, enquanto a Europa ia sendo recortada em um novo mapa. Sob os elegantes candelabros do Crillon, presidentes e primeiros-ministros desmantelaram dois impérios, depuseram quatro reis e constituíram três novas repúblicas. Os representantes da imprensa reuniam-se sob as arcadas no lado norte da praça: Paris se transformara no foco do noticiário internacional.

A censura terminou com o armistício. Os jornais franceses ampliaram suas edições diárias para além da página única imposta como medida de guerra para economizar papel. Já podiam alardear outra vez suas tendências políticas, com editoriais sobre reparações alemães e a anexação do Saar. Agências de notícias e jornais estrangeiros abriam sucursais o mais perto possível do Champs Elysées ou l'Opéra. Entre os que já estavam 'lá' e queriam permanecer na cidade favorita do pós-guerra, houve uma corrida frenética por nomeações para a American Relief Administration de Hoover, mas legiões de jovens esperançosos tiveram de se engalfinhar para arrumar um bico de jornalista na cobertura da conferência de paz.

Alguns focas transferiram-se da publicação Stars and Stripes, do exército americano, para as sucursais parisienses da Reuters, da United Press e da Associated Press. John Dos Passos e Vincent Sheean tomaram-se correspondentes estrangeiros nômades, com Paris como escala frequente ou cômodo quartel-general. Foi da sucursal do Philadelphia Ledger em Paris que Dorothy Thompson cobriu a conferência de paz. O capitão Walter Lippmann, que servira como oficial de propaganda com o general Pershing, tornou-se assessor de imprensa do presidente Wilson, com a esperança de elucidar para os leitores anglo-americanos seus Quatorze Pontos.


Os Anos Loucos - Capítulo 2: Fim da Parada

A primeira vez que um avião Gotha, pesadão e instável, voou sobre a rue Saint-Honoré, um antiquário que usava um elmo de ponta da guerra franco-prussiana disparou seu fuzil de caça contra o intruso. Impossível que Paris se tornasse um posto militar avançado e alvo inimigo. Os que tinham curiosidade bastante foram para o Bois de Boulogne ouvir a canhonada. Durante o bombardeio de 1918, um milhão de parisienses recolheu-se a relativa segurança do campo: enquanto os fantasmais zepelins evoluíam sobre o Sena transportando cargas mortais de explosivos, os que não tinham fugido da cidade iam se abrigar em adegas ou nas plataformas subterrâneas do metrô. Gertrude Stein e Alice Toklas foram para a casa da zeladora, de modo a terem sobre suas cabeças seis andares: era verdade, disse Alice, que os joelhos da gente batiam um no outro, como descrito em verso e prosa.

As posições da artilharia alemã achavam-se a pouco menos de 150 quilômetros da capital, bem perto para que o Grande Bertha atingisse com seus balaços o coração de Paris. Após o toque de recolher dos klaxons, a cidade, num lúgubre silêncio, se tomava um vazio. Não havia ninguém nas ruas de noite, a não ser as patrulhas móveis de hirondelles, os policiais que percorriam de bicicleta os bulevares, com as pontas das suas capas se estendendo, como as asas das andorinhas, para trás. Ao crepúsculo a cidade tomava a pálida cor do absinto - nove entre dez lâmpadas das ruas mantinham-se apagadas pelas restrições da guerra. A vida noturna praticamente acabara, a não ser pelo caf'-conc' da rue de la Gaite, sempre aberto para os soldados de licença. As mulheres da rua remanescentes, em tomo da estação Saint-Lazare, mergulhavam nas trevas quando os hirondelles passavam.

Crianças e velhos foram evacuados para escapar a penúria dos invernos da guerra e também ao perigo de ataques dos zepelins. (O pintor mexicano Diego Rivera perdeu um filho recém-nascido devido ao frio e a fome.) O carvão era raro, vindo da Inglaterra por mar ou das montanhas Cevennes, ao sul de Lyon, agora que a rica região carvoeira do nordeste estava ocupada ou debaixo de fogo. Os parisienses esperavam em filas intermináveis por uma ração de boulets feitos de pó de carvão, palha e turfa. Foi necessária a intervenção de um ministro de Estado para se conseguir uma carroça de carvão para o escultor Rodin, que morria de congestão pulmonar. O pintor japonês Fujita impressionou-se quando uma mulher chamada Fernande quebrou uma cadeira Luis XV para por no fogo para sua visita, que lhe propôs casamento. Entre as linhas imponentes das castanheiras do Jardim de Luxemburgo havia canteiros de cenoura e vagem; e até no elegante parc de la Muette, em Passy, se plantou batata.

O s Anos Loucos - Capítulo 1: Últimos Ritos, Primeira Loucura

Ele era Modi, ela era Noix-de-Coco - ou ele a chamava Haricot Rouge naquele inverno da Grande Guerra quando os amantes não comiam nada a não ser feijão vermelho. Modigliani havia colhido uma flor recém-desabrochada e frágil entre as jovens alunas da Academia de Arte Colarossi: Jeanne Hébuterne, de 19 anos, o último grande amor do pintor. Ele pintou-a na pose lânguida, sensual, alongada das mulheres de Modigliani; ela fugiu de casa para partilhar sua vida miserável na rue de la Grande-Chaumière e engravidar dele. Por algum tempo houve uma mesada - de até três mil francos - do marchand Zborowski, mas o dinheiro se esvaía em absinto e vinho, haxixe ou cocaína.

Uma vez, num grande porre ou numa alucinação causada por drogas, Modi arrastou Jeanne pelas tranças e poderia tê-la espancado na rua, não fosse a intervenção de uma zeladora.

"Nós estamos de acordo, Jeanne e eu, numa alegria eterna", disse ele a Zbo - fosse o que fosse o que, em 1919, isso queria dizer em Montparnasse. A deles foi sem dúvida uma história de inverno das Cenas da vida boêmia de Henri Murger. Quando Amedeo Modigliani morreu de meningite tuberculosa no Hôpital de la Charité, seu irmão Emmanuele telegrafou a Kisling de Roma:

"Enterre-o como um príncipe."

Os Anos Loucos - William Wiser

Sinopse:

Entre as mortes do pintor Amedeo Modigliani e a de Sergei Diaghilev, o fabuloso produtor de balés, o século XX conheceu sua década mais mirabolante e criativa. Era quando todos precisavam estar em Paris. Foram os anos loucos que até hoje merecem a curiosidade e a inveja daqueles que não chegaram a tempo para a festa. Como observa, muito correto, William Wiser, responsável por esta orgia de livro, o fim da guerra não só acabou com um cáiser e um czar. Deu também um significado mais brilhante ao conceito de liberté, egalité e fraternité dos franceses. Paris virou o centro do mundo. Não só porque o câmbio era favorável ao dólar, mas também porque a cidade era a mais propícia do mundo para a alegria.

Os primeiros americanos a chegar foram os que tinham participado da guerra e queriam aproveitar as liberdades que a Belle Époque alardeara para o mundo, só possíveis na França liberal. James Thurber, e. e. cummings, John Dos Passos e Ernest Hemingway viram Paris e tentaram descobrir um jeito de ficar. Ezra Pound não esperou muito tempo. Circulava pela cidade como se ela já fosse de sua propriedade. Edmund Wilson também apareceu, apaixonado e rejeitado pela bonita Edna St. Vincent Millay, escritora de belos poemas. O casal, Zelda e Scott Fitzgerald, veio dar uma espiada. E foi apressado em sua conclusão: "Cultura vai atrás do dinheiro." Voltou para Nova York, virou best seller [e por fim em 1925 acabou voltando].

Os outros não quiseram arriscar. Ficaram em Paris, publicando o que escreviam em pequenas revistas literárias que não paravam de nascer e logo morrer, numa infindável sucessão. Foi um dos vícios dessa época tão generosa em suas modas e manias repentinas. Gertrude Stein, antiga moradora da cidade, ocupava sempre espaço nessas publicações efêmeras, divulgando um pouco de sua enorme produção literária. No começo, seu famoso estúdio da rue de Fleurus era hospitaleiro para os escritores americanos deslumbrados. Ernest Hemingway foi discípulo amado e, mais tarde, rejeitado. Ela era dona do melhor discernimento. Localizava com precisão a qualidade de uma frase ou de um quadro. Pablo Picasso foi uma de suas descobertas, como atesta o retrato que ele pintou dela, e que cada vez fica mais fascinante.

Atuando no mesmo setor das letras, tinha Sylvia Beach, dona da livraria Shakespeare and Company. Sua imortalidade ficou garantida por ter publicado a primeira edição de Ulysses, de James Joyce, um escritor sem tostão, que sempre se mostrava impertinente com seus benfeitores.

Mas Paris não era só um aglomerado de escritores exilados de terras mais provincianas. Era Coco Chanel, que mudou a cara da cidade com seus vestidos elegantes e confortáveis e seu perfume N.º5, até hoje uma mina de ouro. Chanel e o art déco da grande exposição de artes decorativas de 1925 são, para todo o sempre, a mais atraente imagem da década.

Paris virou vitrina e todo mundo queria entrar nela. Os negros americanos do le jazz hot chegaram na companhia de Josephine Baker, uma pantera desfilando outra pantera na coleira. Tinha Jean Cocteau e seu Le Boeuf sur le Toit. Mas o paraíso era dos americanos. Os milionários chegavam poderosos como Nancy Cunard, Sara e Gerald Murphy, Caresse e Harry Crosby, com Zelda e Scott Fitzgerald como testemunhas. Tudo era fácil e barato. Até 1929 e a queda da Bolsa. Aí todos foram embora, mas a história já estava feita. Nenhum outro século saberá repeti-la. Não tem problema. É assunto para um ótimo livro.

By TELMO MARTINO

Sobre o Autor:

William Wiser é um bem-sucedido autor de vários romances, entre os quais Disappearances. Americano de há muito residente na França, vive perto de Grasse com a esposa Michelle.