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Os Anos Loucos - Capítulo 7: Grana Preta e Pequenas Revistas

Se Hemingway quisesse realmente ser um escritor, disse-lhe Gertrude Stein, ele teria de largar o jornalismo.

"Se você continuar trabalhando para jornais, nunca verá as coisas, verá apenas palavras, e isso não vai dar certo... "

Embora Hemingway dependesse a princípio, para uma sobrevivência apertada, de missões no exterior para o Toronto Star, viu que havia verdade na advertência da srta. Stein. O jornalismo contribuíra muito para o estilo despojado de Hemingway - fragmentos de despachos noticiosos, experiências e observações por ele adquiridas como correspondente iriam aflorar como as cortantes e concentradas vinhetas literárias de seu primeiro esforço, Em nosso tempo..., mas sua prosa jornalística teria tido efeito insignificante e finalmente destrutivo sobre sua ficção. Hemingway confiava na opinião de Gertrude Stein em questões literárias; ele mostrava seus manuscritos tanto a ela quanto a Pound, em separado.

"Ezra acertava a metade do tempo e, quando errava, errava tanto que ninguém tinha dúvida. Gertrude acertava sempre."


Os Anos Loucos - Capítulo 5: Os nós no rabo de Picasso

"Picabia é o homem que deu nós no rabo de Picasso."
Ezra Pound


“Sim", lamentou-se Gertrude Stein, "a velha turma sumiu." Nisso que ela o dizia, porém, um ativo contingente da velha turma, a turma dela, já estava se movendo de novo para suas posições de antes da guerra. Paris, como uma tela de Vallotton, voltava progressivamente a vida. (Quando Vallotton fez seu retrato, Gertrude Stein observou como era obsessivo o método como ele pintava da esquerda para a direita, começando no alto da tela e descendo então para a seção seguinte, até que toda a superfície estivesse coberta de tinta e o retrato completo.) Lentamente, arrondissement por arrondissement - e particularmente em Montparnasse, que tomara o lugar de Montmartre como o último posto avançado da vanguarda -, o retrato começou a definir-se e a ganhar cor.

Os alemães tinham fracassado duas vezes em avançar pelo Marne para uma invasão de Paris, mas agora estava ocorrendo uma invasão em tempo de paz. Grandes colônias de desenraizados - emigrantes russos, aos montes - juntavam-se aos soldados de regresso apinhados na capital. Da América, "os intelectuais mais jovens e independentes foram subindo pela mais longa prancha de embarque do mundo", como Malcolm Cowley visualizou:

"a grande migração para os novos campos da mente".

Alice B. Toklas


Alice B. Toklas
foi a parceira de vida da escritora
Gertrude Stein.

Início da vida


Ela nasceu Alice Babette Toklas em San Francisco, Califórnia em uma família de classe média judaica e frequentou escolas em São Francisco e Seattle. Por um curto período de tempo, também estudou música na Universidade de Washington. Ela conheceu Gertrude Stein em Paris em 8 de setembro de 1907, no seu primeiro dia na cidade. Juntas, organizaram um salão que atraiu escritores americanos expatriados, como Ernest Hemingway, Paul Bowles, Thornton Wilder, Sherwood Anderson, e pintores de vanguarda, incluindo Picasso, Matisse e Braque.

Agindo como confidente, amante, cozinheira, secretária, musa, editora, crítica e organizadora em geral de Stein, Toklas permaneceu uma figura de fundo, principalmente vivendo na sombra da amante, até ao ponto de Stein publicar suas memórias em 1933 sob o título A Autobiografia de Alice B. Toklas, tornando-se um best-seller. As duas eram um casal até a morte de Gertrude Stein, em 1946.


Janet Flanner

Janet Flanner (13 de Março de 1892 - 7 de novembro de 1978) foi uma escritora americana e jornalista que atuou como correspondente em Paris da revista New Yorker, de 1925 até à sua aposentação em 1975. Ela escreveu sob o pseudônimo de Genet. Publicou também um novo single, The City Cubical, situado na cidade de Nova York.

Vida

Janet Flanner nasceu em Indianápolis, Indiana, seus pais eram Frank e Maria Flanner. Tinha duas irmãs, Maria e Hildegarde Flanner. Seu pai foi co-proprietário de uma casa mortuária e proprietário do primeiro crematório no estado de Indiana. Após um período viajando no exterior com a família e os estudos em Tudor Hall School for Girls (agora Tudor Park-School), ela se matriculou na Universidade de Chicago em 1912, deixando a universidade em 1914. Dois anos depois, ela retornou à sua cidade natal para assumir um cargo de crítica de cinema no jornal local, o Indianápolis Star.

Em 1918 ela se casou com William "Lane" Rehm, um amigo que tinha feito na Universidade de Chicago. Ele era um artista na cidade de Nova York, e mais tarde ela admitiu que se casou com ele para sair de Indianápolis. O casamento durou apenas alguns anos e eles se divorciaram amigavelmente em 1926. Rehm foi favorável à carreira Flanner até a sua morte.


Duas Vidas: Gertrude e Alice - Janet Malcolm

Como foi possível um casal de judias, homossexuais e já em idade avançada, sobreviver aos nazistas na França Ocupada?

Com essa pergunta, Janet Malcolm inicia um trabalho de biografia literária e jornalismo investigativo. 'Duas vidas' é um retrato do par formado por Gertrude Stein e Alice B. Toklas, que atendeu às necessidades de Stein durante os quarenta anos de seu casamento.

Com o foco na época em que Stein e Toklas moraram numa aldeia da França de Vichy, 'Duas vidas' explora as ambiguidades de suas protagonistas e de seu tempo. De aparência e temperamento opostos, as duas mulheres lançaram mão de subterfúgios os mais diversos para permanecer na França depois de as deportações já terem começado. Malcolm revela que as duas guerras mundiais que Stein e Toklas atravessaram juntas têm como paralelo a guerra privada que se travava entre elas e que às vezes eclodia em combates amargos.



Shakespeare and Company: Uma livraria na Paris do entre-guerras

Em 1919, a margem esquerda do rio Sena ganhava um ponto de encontro - e às vezes refúgio - para os escritores de língua inglesa que passavam por Paris. A jovem norte-americana Sylvia Beach mudara-se para a cidade e decidira montar a livraria que apresentaria aos franceses as obras da genial safra de escritores dos EUA na primeira metade do século XX.

Batizada de Shakespeare and Company, a livraria também foi responsável por publicar a obra prima de James Joyce, Ulisses, que fora rejeitado e proibido no Reino Unido e nos Estados Unidos por ser considerado imoral.

Depois de viver seu auge no período entre-guerras, a Shakespeare and Company teve de fechar. A ocupação nazista em Paris ameaçava os livros, quadros e manuscritos guardados na loja. Anos depois, após a morte de Sylvia Beach, eles foram recolocados à disposição dos leitores, escritores, turistas e curiosos, desta vez em uma outra loja, pertencente a George Whitman, que rebatizou sua própria loja com o nome da Shakespeare, e deu à sua filha o nome da antiga proprietária.

Gertrude Stein

De Gertrude Stein é comum dizer-se que "descobriu" Picasso, que inventou a expressão "geração perdida", aplicada a Hemingway e Fitzgerald, que aconselhou Paul Bowles a dedicar-se à música e que se considerava um gênio. Sabe-se também que possuía uma das maiores e mais ricas coleções de arte do século XX e que essas obras se encontram, agora, espalhadas por vários museus. No seu apartamento, em Paris, acotovelavam-se personagens do mundo artístico e da sociedade da época: Pablo Picasso, Braque, André Masson, Tristan Tzara, Marcel Duchamp, Jean Aron, Djuna Barnes, Nancy Cunard são alguns dos nomes constantes de uma lista interminável.

Em 1999, cento e vinte e cinco anos depois do seu nascimento, sucederam-se as manifestações de apreço, análise, recuperação da sua obra: teatro, ficção, poesia, biografia, ópera. O século passado terminava, assim, com uma "revisão da matéria" lançada aos ventos por Stein. A partir do estudo da sua obra e personalidade, noções como modernismo e pós-modernismo, etnicismo, lesbianismo, elitismo, estética, nunca mais foram as mesmas.

Gertrude Stein nasceu a 3 de Fevereiro de 1874 em Allegheny, Pennsylvania, Estados Unidos e passou a maior parte da infância entre Viena e a Califórnia. De acordo com as recordações de uma tia, "aos catorze meses andava sozinha, imitava e repetia tudo." Tinha oito anos quando começou a escrever, uma atividade que rapidamente se transformou em obsessão, tal como a leitura. As suas preferências iam de Shakespeare a livros de História Natural. Na escola mostrou imediatamente o fascínio que sentia pela estrutura das frases.

Em 1893 entrou para o Radcliffe College mas, em 1903, instalou-se em França com o irmão, Leo, depois de ter passado por um curso de medicina na Universidade Johns Hopkins e de ter experimentado o estudo de psicologia com William James, com quem desenvolveu uma relação estreita e privilegiada ao ponto de, num belo dia de Primavera, escrever no topo da página de um exame:

"Querido Professor James. Espero que me perdoe mas hoje não me apetece nada fazer um exame de filosofia.”

Os Anos Loucos - Capítulo 2: Fim da Parada

A primeira vez que um avião Gotha, pesadão e instável, voou sobre a rue Saint-Honoré, um antiquário que usava um elmo de ponta da guerra franco-prussiana disparou seu fuzil de caça contra o intruso. Impossível que Paris se tornasse um posto militar avançado e alvo inimigo. Os que tinham curiosidade bastante foram para o Bois de Boulogne ouvir a canhonada. Durante o bombardeio de 1918, um milhão de parisienses recolheu-se a relativa segurança do campo: enquanto os fantasmais zepelins evoluíam sobre o Sena transportando cargas mortais de explosivos, os que não tinham fugido da cidade iam se abrigar em adegas ou nas plataformas subterrâneas do metrô. Gertrude Stein e Alice Toklas foram para a casa da zeladora, de modo a terem sobre suas cabeças seis andares: era verdade, disse Alice, que os joelhos da gente batiam um no outro, como descrito em verso e prosa.

As posições da artilharia alemã achavam-se a pouco menos de 150 quilômetros da capital, bem perto para que o Grande Bertha atingisse com seus balaços o coração de Paris. Após o toque de recolher dos klaxons, a cidade, num lúgubre silêncio, se tomava um vazio. Não havia ninguém nas ruas de noite, a não ser as patrulhas móveis de hirondelles, os policiais que percorriam de bicicleta os bulevares, com as pontas das suas capas se estendendo, como as asas das andorinhas, para trás. Ao crepúsculo a cidade tomava a pálida cor do absinto - nove entre dez lâmpadas das ruas mantinham-se apagadas pelas restrições da guerra. A vida noturna praticamente acabara, a não ser pelo caf'-conc' da rue de la Gaite, sempre aberto para os soldados de licença. As mulheres da rua remanescentes, em tomo da estação Saint-Lazare, mergulhavam nas trevas quando os hirondelles passavam.

Crianças e velhos foram evacuados para escapar a penúria dos invernos da guerra e também ao perigo de ataques dos zepelins. (O pintor mexicano Diego Rivera perdeu um filho recém-nascido devido ao frio e a fome.) O carvão era raro, vindo da Inglaterra por mar ou das montanhas Cevennes, ao sul de Lyon, agora que a rica região carvoeira do nordeste estava ocupada ou debaixo de fogo. Os parisienses esperavam em filas intermináveis por uma ração de boulets feitos de pó de carvão, palha e turfa. Foi necessária a intervenção de um ministro de Estado para se conseguir uma carroça de carvão para o escultor Rodin, que morria de congestão pulmonar. O pintor japonês Fujita impressionou-se quando uma mulher chamada Fernande quebrou uma cadeira Luis XV para por no fogo para sua visita, que lhe propôs casamento. Entre as linhas imponentes das castanheiras do Jardim de Luxemburgo havia canteiros de cenoura e vagem; e até no elegante parc de la Muette, em Passy, se plantou batata.